Capitulo um
Filosofando em cima do 18° andar
Como as pessoas são pequenas quando olho daqui de cima. O mundo parece bem menos complicado e traiçoeiro. Como eles podem viver assim? Alheio a tudo e a todos. Aqui em cima é tão tranqüilo e tão mais belo. O vento passa os pássaros cantam e a paisagem é mais aconchegante.
Algumas pessoas se aglomeram em volta do prédio enquanto penso essas coisas. Elas gritam algo que (in)felizmente eu não posso ouvir. O vento corta em meus ouvidos e as palavras são levadas pra longe. Longe de mim, longe de onde eu posso ouvi-las. Sinto que estão preocupadas. Mas, fazer o que? Agora que eu resolvi tirar o que não mais me pertencia, elas se preocupam. Mas por que não antes, por que não quando tiveram tempo, por que não?
A duvida agora consome meu ser, mas sei que estou decidido, e que nada, absolutamente nada, mudara meus planos. Mais gostaria que fosse diferente. Gostaria que fosse mais simples; mais calmo.
Sei que essa atitude é extrema demais. Sei que não é a melhor saída, mas não arrumei nenhuma outra, e ninguém estendeu os braços quando precisei, ou abriu a porta certa nas horas mais difíceis.
Dou um passo em direção ao fim. O mundo começa a girar mais rápido, as pessoas começam a ficar mais eufóricas, gritam mais e mais alto, pena ainda não poder ouvi-las, ou não ouvi-las perfeitamente. Às vezes ouço, "não faça isso", "você é jovem demais", "desça, vamos conversar". Mas agora é tarde, a minha decisão já esta tomada, e como eu já havia dito, ninguém iria mudá-la.
Ouço agora o som de sirenes, talvez os bombeiros, ou ate mesmo a policia, com seus negociadores dizendo que a vida é bela, que eu não deveria fazer aquilo, ou qualquer coisa, que me faça mudar de idéia, mas tudo é dito da boca pra fora, sem sentimentos, ou qualquer demonstração de preocupação, achando que isso irá mudar o pensamento dos decididos. Mas algo que a ciência não sabe, é que quem está decido não desiste, somente aqueles que ainda estão na duvida, que recaem, e revêem os seus conceitos, tentam novamente voltar atrás, e algumas vezes fracassam de novo e de novo, e se arrependem de não terem feito na hora que ainda restava um pingo de coragem em suas miseras, pobres e insatisfeitas vidas.
Dou mais um passo, o ultimo antes de tudo terminar, e começo a lembrar de tudo o que fiz e de tudo que me arrependi de ter feito, e dizia que nunca me arrependia de nada, mas descubro agora, que mentia ate para mim mesmo. Mas quem nunca fez isso? Se enganar é mais fácil que enganar aos outros. A sirene se aproxima e para na entrada do prédio que estou prestes a findar minha vida. Os gritos aumentam. Os bombeiros ligam o megafone e pedem para eu ter calma. Mais? Eu tive calma demais até hoje e o que obtive?
Vejo do alto desses dezoito andares, os bombeiros criando um cordão de isolamento onde meu corpo e minha mente descansará daqui a poucos instantes. Vejo alguns bombeiros entrando no prédio onde estou. E ainda ouço o chefe deles falando para eu ter calma que algumas pessoas já vêm para conversar comigo. Mas agora é tarde, o fim se aproxima, eu sinto que se não for agora, não será nunca mais. As pessoas parecem que ainda não compreenderam o que está acontecendo, de repente toda rotina do prédio foi mudada, seus planos foram arruinados e compromissos que deveriam acontecer foram todos desmarcados por conta de um louco, que não tem mais esperanças em sua própria vida ou que acredita ter o poder de controlar a hora de seu fim.
A porta por traz de mim se abre, de lá saem três pessoas. Uma alta com um semblante calmo, vestido com seu uniforme limpo e impecável, em uma das mãos um radio, talvez seja para conversar com o chefe que está na portaria, e na outra uma câmera, talvez para poder fotografar o sucesso, melhor ainda, o fracasso da operação. O segundo um senhor mais experiente, com marcas em seu rosto, marcas fundas contando sua historia onde ele já deve ter visto de tudo, as marcas que nunca terei em meu rosto, as marcas dos sobreviventes.
O terceiro é um jovem. Um jovem bastante simpático, gostaria de tê-lo conhecido em outra ocasião mais isso não será possível, não nessa vida. Um jovem de rosto agradável. Ele é quem está vindo em minha direção. Calado. Até o momento não
demonstrou nenhum sentimento ou qualquer outra reação a não ser vir ao meu encontro. Ao chegar próximo a mim, mas não tão perto a ponto de me segurar, retira seu paletó, coloca no chão, e me faz uma pergunta que nunca mais poderei responder.
-Olá. Qual o seu nome?
Que importa agora qual meu nome? Dou meu ultimo passo antes da queda que ira quebrar todos os meus ossos, e assim de uma vez por todas acabar com meu sofrimento, a ultima coisa que balbucio, antes de começar a minha queda de encontro
ao solo, é uma pequena mas sincera palavra.
-Desculpa... Ainda pude ver o rosto de desespero do jovem, não pela a minha vida, mas por ele ter falhado com o que ele veio fazer aqui. As pessoas lá em baixo ainda gritam, outras choram e outras ainda não crêem no que fiz. Mas eu estava certo e ciente daquilo que estava fazendo.
Desculpa, foi tudo o que eu pude pronunciar antes que meu fim chegue.
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